Prefeituras do Sertão ignoram as redes sociais, algumas como Floresta, preferem focar em quem governa

É difícil encontrar hoje em dia quem esteja alheio à internet e às redes sociais. Mas para algumas prefeituras pernambucanas o mundo digital praticamente inexiste. De acordo com reportagem do Jornal do Comércio, a cientista política Raquel Lins, autora do projeto Orbe Político, fez um estudo em que aponta a distância das gestões municipais de simples ferramentas tecnológicas de comunicação. Segundo o levantamento, 70 das 185 prefeituras não contam com página ou perfil no Facebook. Dessas 70, pelo menos 50 sequer têm websites ou, quando têm, apresentam páginas desatualizadas.

 

 

Ainda segundo Raquel Lins, algumas administrações municipais pecam por atuar nas redes sociais com o foco no gestor público e não na prefeitura em si. Esse é o caso de Floresta, no Sertão pernambucano. “A cidade não tem perfil oficial no Facebook, mas na minha página pessoal estão informações sobre ações da prefeitura”, defendeu a prefeita Rorró Maniçoba (PSB).

 

O perfil pessoal da socialista divulga ações de sua gestão como programas de saúde, cursos de qualificação profissional e obras de infraestrutura, mas o traço da impessoalidade administrativa se perde em meio a postagens de cunho mais político. No dia 17 de outubro, por exemplo, Rorró convidou os moradores de Floresta a participarem da “festa da vitória” de dois representantes da cidade eleitos este ano – um deles, Kaio Maniçoba (PHS), é o filho da própria gestora.

 

O site de Floresta está desatualizado com informações sobre o IPTU ainda relativas a 2013, por exemplo. Rorró Maniçoba garante que esse problema é temporário. “Estamos cuidando disso”, diz. É por essas e outras que tirou nota 2 esta semana, numa escala de 0 a 10 na avaliação sobre transparência do Ministério Público Federal.

 

A Prefeitura de Petrolina, no Sertão, também está fora do Facebook. A exemplo de Floresta, as informações da gestão municipal são divulgadas em textos escritos na primeira pessoa no perfil que o prefeito Júlio Lóssio (PMDB) mantém na rede social. “Uso o Twitter e a minha página no Facebook para manter um diálogo permanente com as pessoas”, explica o gestor.

Embora com um layout modesto, o site de Petrolina é atualizado. “O que nos faz alcançar e atender melhor as pessoas não é publicar uma página e mantê-la no ar, ao acaso, mas sim prover as nossas redes de contato com conteúdo verdadeiro e de qualidade no sentido de levar a informação necessária à população de maneira eficiente, transparente e direta”, diz Lóssio.

 

Raquel Lins complementa que a ausência das prefeituras no ambiente online representa mais do que um pequeno desleixo administrativo. “Nas cidades onde a prefeitura não tem perfil nas redes sociais ou não tem website fica difícil para os moradores encontrarem notícias sobre obras ou chamadas para audiências públicas. De certa forma, essas prefeituras acabam se tornando fantasmas”, aponta.

 

A cientista política reconhece que muitos pernambucanos, sobretudo no interior, ainda não têm acesso à internet. No entanto, afirma que esse fator não pode ser usado como justificativa para que as prefeituras deixem de alimentar informações de forma online. “Qualquer pessoa ligada à prefeitura pode criar uma página na rede social. É rápido, fácil e não deixaria de informar à população. As gestões precisam fazer audiências públicas todos os anos. Como elas convocam a população? Apenas a partir de carro de som?”, questiona.