O isolamento político e popular de Dilma enfraquece a democracia

Enquanto o governo se preocupava mais em conter o PMDB, os demais partidos da base aliada iam se afastando dia a dia do Planalto. Atualmente, das 11 legendas que, teoricamente, integram a ala governista, apenas duas se mantêm firmes ao lado de Dilma Rousseff para o que der e vier: o PT e o PCdoB.

De acordo com o Jornal Correio Braziliense, os demais, se o Planalto piscar os olhos, arriscam seguir outros caminhos e, hoje, respondem muito mais a um comando do PMDB do que das autoridades palacianas e seus representantes. Com Eduardo Cunha vitorioso, o governo, pouco a pouco, vai perdendo a influência sobre os partidos da base. Hoje, PMDB, PTB, PP jogam alinhados dentro de um bloco. Contam, invariavelmente, com o PR e o PSC. Em breve, terão o Pros ao lado.

Integrantes da bancada contam que a saída de Cid Gomes da Educação tende a afastar o partido de Dilma, porque eles sabem que não terão o direito de indicar o sucessor. E também existe, na legenda, uma disputa interna entre os aliados de Cid Gomes e o comando partidário desde a escolha do novo líder na Câmara, Domingos Neto (Pros-CE). Para piorar, há ainda o isolamento popular, a presidente tem a segunda pior avaliação histórica. De acordo com pesquisa CNT, 64,8% dos entrevistados consideram o governo petista ruim ou péssimo. Ela perdeu apenas para FHC, em 1999, quando 65% acharam o governo dele ruim ou péssimo.

O que levou muitos a manterem uma certa distância do Planalto foi a artimanha que aliados acreditam ter sido montada dentro do palácio para “reformar a base” à revelia deles. Essa armação consiste em criar o PL, fundi-lo com o PSD de Gilberto Kassab e, ao mesmo tempo, fortalecer o Pros, no qual estão hoje os irmãos Cid e Ciro Gomes. Nos últimos meses, por mais que o Planalto dissesse que não pretendia seguir por esse rumo, os partidos não compravam o discurso.

O que deixou os velhos apoiadores de Dilma certos de que esse plano estava em curso foi o fato de Dilma entregar o Ministério da Educação a Cid Gomes e o das Cidades a Kassab. As duas pastas fazem a ponte com prefeitos e também têm influência direta sobre vários setores da sociedade. Não entregar nenhuma delas aos partidos médios que estão na base há tempos – nem ao poderoso PMDB – foi o que disseminou o germe do distanciamento.

Passada a composição do Ministério, os aliados mais antigos de Dilma Rousseff traçaram seus planos. Ao longo de janeiro, PP e PTB, temendo serem esmagados pelos novos partidos, fecharam apoio a Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na disputa pela presidência da Câmara. O PRB, idem. O PR iria pelo mesmo caminho, não fosse a pressão do palácio recheada de promessas nas últimas horas de janeiro para que fechasse o apoio a Arlindo Chinaglia (PT-SP). O petista já tinha o apoio do PSD, do Pros e do PCdoB. O PDT perdeu o prazo para ingressar nesse grupo porque estava dividido. A base, então, se esfacelou e não se emendou mais.

Esse cenário de “uma base aliada, mas nem tanto” e com a Lava-Jato em evidência é o que promete embalar as medidas do ajuste fiscal a partir desta terça-feira. O relator do projeto que trata das questões previdenciárias será o líder do PT, José Guimarães. A relatoria ficaria com o PP, mas o líder do partido, Eduardo da Fonte (PE), avisa que um acordo foi fechado há três semanas para que a proposta ficasse com o PT. “Esses projetos têm muita chance de serem aprovados, porque muita gente tem consciência do que o ajuste fiscal significa para o Brasil. Se não aprovar, o risco para o país é grande”, comenta o parlamentar.