Morre aos 95 anos Cadinho Machado: Um dos últimos coiteiros do Rei do Cangaço, Lampião

Ainda garoto, com a idade de oito anos, Cláudio Alves Fontes, conhecido por Cadinho Machado, conheceu alguns cangaceiros. Depois desse encontro, durante muitos anos, foi encarregado de levar algumas coisas para os cangaceiros, tornando-se um coiteiro.

José Alves Fontes e Maria Alves Fontes, pais de Cadinho, residiam na fazenda Beleza em  Pão de Açúcar, Alagoas. Cadinho ficou muito tempo levando leite para Corisco e Dadá alimentarem sua filha no coito Poço Salgado (Esse coito depois ficou conhecido como a Pia de Corisco).

Nascido no dia 07 de setembro de 1920, Cadinho também ficou abastecendo o grupo de Lampião com leite e água e sempre tinha seus serviços pagos pelos cangaceiros, dinheiro esse que juntava e sempre andava nos bolsos de suas calças.

Em uma dessas idas ao coito “Pocinhos” (também de Neco Brito), presentes nesse dia os grupos de Lampião e Corisco,  Cadinho sentou-se na beira de um riacho e ficou conversando com o cangaceiro Cacheado que o escutava encostado no mosquetão. Em frente a Cadinho, o cangaceiro Passarinho limpava sua arma; De repente ouviu-se um disparo, os cangaceiros procuraram abrigo e se prepararam para lutar; Cadinho correu achando que era a polícia e quando chegou ao barranco do riacho  e se escorou, sentiu o sangue jorrando de suas nádegas e banhando as pernas. O meninote se assustou com a quantidade de sangue. Os cangaceiros se recompuseram do susto.

Maria Bonita, Dadá e Maria de Pancada viram Cadinho molhado de sangue,  pegaram o menino e Maria Bonita avisou Lampião:

– Oh Lampião, o carregador de água tá baleado!

As mulheres baixaram a calça de Cadinho e ele disse que estava com vergonha. Maria Bonita mandou ele se calar e depois observou:

– Ah, ele já tá criando Penugem!

Lampião perguntou de onde tinha partido o tiro. O cangaceiro Cacheado entregou:

– Foi Passarinho! Olha ele lá embaixo da quixabeira!

No bolso da calça do garoto tinha um dinheiro todo ensopado de sangue e Lampião pegou o dinheiro e colocou farinha encima pra secar o liquido. Lampião pediu o dinheiro emprestado (era 220 mil réis); Cadinho emprestou.

Do coito Lampião veio pro Caboclo (local onde reside hoje o senhor Cadinho). O cangaceiro veio pra matar Neco Cavalcante, inimigo ainda da época de Pernambuco.

Cadinho ficou sendo cuidado por Juriti. Uma semana depois Lampião retornou e pagou o dinheiro do jovem.

Depois Lampião prometeu duas novilhas de presente para Cadinho e foi quando aconteceu a morte do cangaceiro, no dia 28 de julho de 1938. Cadinho até hoje lamenta ter perdido o prêmio.

Aos 95 anos de idade, Cadinho é ainda homem lúcido, bom de prosa, sorridente, alegre… Ri sempre que lembra de um tiro que varou suas nádegas e da vergonha que teve em ter suas vestes arrancadas deixando suas “VERGONHAS” à mostra de mulheres encaliçadas na lida diária com a presença do sangue que banhou tantas vezes as áridas veredas das Caatingas nordestinas.

CADINHO

Colaboração de JOÃO DE SOUSA LIMA –  Historiador e escritor

Membro da ALPA – Academia de Letras de Paulo Afonso

Membro da SBEC – Sociedade Brasileiro de Estudos do Cangaço